13/08/2009

Até 20 Set "Exposição fotográfica VENEZA, a água do tempo" - Lisboa


Exposição fotográfica VENEZA, a água do tempo
Sobre a ideia e o conteúdo da exposição, afirma o artista:
"São frequentes as exposições de projecção internacional que repropõem a visão das obras de Canaletto, Guardi, etc, com base no surgimento de novos estudos e ideias sobre tais pintores. Mas a insistência no olhar que os serviu contribui para manter imutável a visão que se tem sobre Veneza. O modo como a realidade é hoje observada e representada modificou-se muito depois da sua genial prestação.
Constitui esta exposição uma modesta tentativa de contribuir para que a representação mais comum de Veneza, através da Fotografia, se abra a novos paradigmas, para que assuma as transformações que o século XX produziu nas artes plásticas, em especial na Pintura veneziana.
Trata-se de um ensaio visual que procura traduzir, pela representação fotográfica, as características de Veneza, integrando as vibrações de luz, o nevoeiro, o movimento das águas, o balanço das gôndolas e dos vaporetti pelo seu rebatimento sobre a superfície aquática e sobre a massa arquitectónica que define os canais. A cidade reconhece-se assim nestas fotografias talvez de modo menos imediato, função da distância a que a imagem obtida se coloca em relação aos arquétipos largamente difundidos, quer pelas reproduções do citado veduttismo secular, quer pelos estereótipos destinados ao consumo turístico.Porque as fotografias foram realizadas em sistema digital, elas foram objecto de tratamento através do programa Photoshop. É importante sublinhar que as operações através dele executadas limitaram-se a uma manipulação básica, a que foi e é usada no processamento clássico ou analógico."
Convidado por Henrique Dinis da Gama, José Sasportes escreveu:
"Veneza é uma miragem.
Perdida entre a noite e a bruma, nasce da água uma silhueta antiga, a transbordar de história. O que foi não é já, há muito, mas todos os dias a ilusão aflora. As pedras realinham-se, os rios definem ilhas e pontes, as praças falam de terra enxuta, logo inundada, para lembrar que quem da água nasceu à água retornará. Agora, no intervalo entre ter sido e deixar de ser, Veneza ergue-se como um teatro, quase só cenário, que as personagens e os actores partiram, ficaram só os espectadores, milhares de espectadores à procura de venezianos.
Veneza é uma miragem que melhor se aprecia de longe, pois ao tocá-la esvai-se. É mais real o reflexo na laguna do que a arquitectura que junto a ela se levanta. Cidade de fantasmagorias, de glórias, de gente do passado que invade o presente, de pintores que inventam céus e terras, de Virgens e de Vénus, de deuses de todo o Mediterrâneo e de demónios do Levante. Saberes que foram ciência, tesouros que foram comércio, palácios que foram desafio, beldades que foram desejo, homens que foram coragem, cantorias que foram divinas, comédias que foram grito plebeu, de tudo está repleta a cidade, mas nada existe, nada é palpável. É eco de uma voz que se calou. É um eco que não cessa, uma alucinação sonora que dá cor à miragem.
Para enclausurar a miragem, pintores e fotógrafos simularam tomá-la por realidade. Fixaram-na entre cores e linhas para que não escapasse. A Veneza que julgamos ver é essa que capturaram e não teve futuro.
Henrique Dinis da Gama ousou fixar a miragem, a cidade que não se atinge, que se afasta quando a queremos na nossa mão. Terá sido um momento raro, esse em que Veneza se deixou surpreender na sua fragilidade de coisa pensada e jamais vista, e se rendeu ao fotógrafo que logrou fulgurá-la com uma objectiva e trazê-la hipnoticamente ao papel em que se revela e imprime. Daqui não se evapora.
No jogo de enganos e ilusões, as fotografias de Henrique Dinis da Gama são uma escola do olhar para quem aceitar descobrir a cidade como uma miragem e não temer mergulhar nos seus abismos. Estas fotografias não são imagens da imagem de Veneza. Não são um livro de horas de Veneza, são a coagulação da cidade perdida. Quem não existe é a outra, a Veneza que ainda fala de doges e de gôndolas."